Neste momento é seguro afirmar que todo o País está contra o PS até o PS. Uma coisa é a esquerda gritar e a direita ranger os dentes, outra coisa é gente do próprio PS organizar comícios contra o Governo. Sócrates conseguiu maioria absoluta em Portugal, mas parece ter dificuldade em obter maioria relativa no PS. Significa isso que os socialistas têm mais juízo que a generalidade dos portugueses? Aí está uma hipótese que, a verificar- -se, seria surpreendente.
Que a crise existe, pelo menos, ninguém nega. De um modo geral, todos estão preocupados com o fosso que se aprofunda, em Portugal, entre os ricos e os pobres.
A esquerda preocupa-se porque o fosso é cada vez maior; a direita indigna-se porque ainda ninguém se lembrou de pôr crocodilos no fosso. Os pobres, com algum esforço, continuam a conseguir passar. Entre a esquerda e a direita está o PS, que acaba por não ser uma coisa nem outra. Que sorte.
Os cidadãos têm algum medo das ideologias, e por isso preferem votar em quem não tem ideologia nenhuma.
A menos que todos estes tumultos e confrontações internas não passem de uma estratégia genial do PS (mas todos sabemos como é raro o PS delinear uma estratégia, quanto mais uma que seja genial). Pense o leitor comigo: Manuel Alegre e Sócrates podem ter-se conluiado para fazer a vida negra ao PSD. O que, em princípio, não seria mau: enquanto o PS se entretém a fazer a vida negra ao PSD, pode ser que se distraia da tarefa de fazer a vida negra aos portugueses. Mas o certo é que, tendo o PS maioria absoluta e, além ou apesar disso, uma oposição interna acirrada, Manuela Ferreira Leite tem um problema grave. A senhora ainda agora foi eleita e já se encontra perante uma tarefa duplamente difícil: por um lado, deve demonstrar que governa melhor que Sócrates; por outro, tem de provar que faz oposição melhor que Alegre. O PS não brinca.
Manuel Alegre pode ser, por isso, para Sócrates, um cavalo de Tróia que, estando dentro do PS, consegue, no entanto, minar o PSD. O primeiro-ministro bem disse que ia criar empregos, mas devia ter avisado que seriam todos para os socialistas. Neste momento, o partido socialista tem militantes a ocupar o lugar de líder do Governo e o de líder da oposição. Que o partido do poder arranje tachos na governação aos seus militantes ainda se aceita, mas que agora também lhes ofereça lugares na oposição, já parece eticamente duvidoso.
Farol... aquele que me faz saber onde é o meu porto seguro. Chamei-lhe assim pelo meu estranho fascínio por Faróis... Adoro! Quis apenas criar um Diário daquilo que vou fazendo, do que gostava de fazer, da vida... Eu, a minha filha (o meu orgulho). Os meus feitos, o que deixo para fazer... apenas falar, mesmo quando não tenho nada para dizer.
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quarta-feira, 30 de julho de 2008
S. Sebastião da Pedreira
É fácil simpatizar com Lisboa. Parece que, no Terramoto de 1755, várias igrejas ficaram destruídas. Mas a rua dos lupanares, ao que dizem os historiadores (que, aliás, deviam dar mais atenção aos lupanares), ficou intacta.
Nutro sincero fascínio por quem se orgulha do sítio em que nasceu. Pessoalmente, tenho dificuldade em orgulhar--me das coisas que me acontecem por casualidade e, como disse Fernando Pessoa, o lugar onde se nasce é o lugar onde mais por acaso se está. É certo que Pessoa bebia bastante, mas o conselho da prevenção rodoviária é «Se conduzir, não beba», e não «Se inventar aforismos sobre o sítio de que é natural, não beba.» Julgo que não é por acaso.
Não é que não haja motivos para uma pessoa se orgulhar de ser de Lisboa. À primeira vista, porém, parece que não há. Julgo que é unânime que a melhor coisa que Lisboa tem é a luz. No entanto, o modo particular como o sol brilha sobre uma cidade dificilmente será motivo de orgulho. Mais: se a luz é o melhor, quer dizer que aquilo que ela ilumina não é particularmente digno de nota. Por outro lado, contudo, é fácil simpatizar com Lisboa. Parece que, no Terramoto de 1755, várias igrejas ficaram destruídas. Mas a rua dos lupanares, ao que dizem os historiadores (que, aliás, deviam dar mais atenção aos lupanares), ficou intacta. Há que respeitar uma cidade em que isto acontece.
Mas, para mim, o principal motivo de orgulho de ser lisboeta é outro, e mais importante: se alguém disser mal de Lisboa, nenhum lisboeta se aborrece. Isto parece-me precioso. Se eu fizer um comentário negativo acerca de qualquer localidade portuguesa, no dia seguinte recebo centenas de cartas de cidadãos indignados. Não tenho o direito de dizer que determinada aldeia de Trás-os-Montes é atrasada. Há imprecisões infames nas minhas opiniões sobre o Carnaval de Torres Vedras. E a minha perspectiva sobre as vacas da ilha Terceira é um escândalo. Mas se eu fizer meia dúzia de críticas à cidade de Lisboa, mesmo que sejam injustas, o meu carteiro bem pode dormir até mais tarde, que ninguém se incomoda a escrever-me. É significativo. Não sei bem de quê, mas é.
Eu, como boa parte da população de Lisboa, nasci em S. Sebastião da Pedreira. Já lá passei duas ou três vezes e confesso que não senti grande coisa. Não me vieram as lágrimas aos olhos. Não me apeteceu escrever poemas. Não me incomoda que o resto do País desconheça onde fica S. Sebastião da Pedreira, quantos habitantes tem a freguesia, ou quais são as tradições locais, se é que há algumas. Trata-se de um sítio, e é tudo. O facto de eu lá ter nascido, como seria de esperar, não transformou a localidade num lugar especial. Assim é que é bonito. O sítio em que nasci é verdadeiramente banal. Não o trocava por nenhum outro.
Por: RIcardo Araújo Pereira
E eu que quando a grande maioria de Lisboetas também em S. Sebatião da Pedreira também concordo na íntegra com o RAP.
Eu própria já passei à porta do sítio onde nasci e de facto não senti nada de especial e concordo que ter nascido num sítio banal faz-me feliz, ah e não o trocava por nenhum outro.
Nutro sincero fascínio por quem se orgulha do sítio em que nasceu. Pessoalmente, tenho dificuldade em orgulhar--me das coisas que me acontecem por casualidade e, como disse Fernando Pessoa, o lugar onde se nasce é o lugar onde mais por acaso se está. É certo que Pessoa bebia bastante, mas o conselho da prevenção rodoviária é «Se conduzir, não beba», e não «Se inventar aforismos sobre o sítio de que é natural, não beba.» Julgo que não é por acaso.
Não é que não haja motivos para uma pessoa se orgulhar de ser de Lisboa. À primeira vista, porém, parece que não há. Julgo que é unânime que a melhor coisa que Lisboa tem é a luz. No entanto, o modo particular como o sol brilha sobre uma cidade dificilmente será motivo de orgulho. Mais: se a luz é o melhor, quer dizer que aquilo que ela ilumina não é particularmente digno de nota. Por outro lado, contudo, é fácil simpatizar com Lisboa. Parece que, no Terramoto de 1755, várias igrejas ficaram destruídas. Mas a rua dos lupanares, ao que dizem os historiadores (que, aliás, deviam dar mais atenção aos lupanares), ficou intacta. Há que respeitar uma cidade em que isto acontece.
Mas, para mim, o principal motivo de orgulho de ser lisboeta é outro, e mais importante: se alguém disser mal de Lisboa, nenhum lisboeta se aborrece. Isto parece-me precioso. Se eu fizer um comentário negativo acerca de qualquer localidade portuguesa, no dia seguinte recebo centenas de cartas de cidadãos indignados. Não tenho o direito de dizer que determinada aldeia de Trás-os-Montes é atrasada. Há imprecisões infames nas minhas opiniões sobre o Carnaval de Torres Vedras. E a minha perspectiva sobre as vacas da ilha Terceira é um escândalo. Mas se eu fizer meia dúzia de críticas à cidade de Lisboa, mesmo que sejam injustas, o meu carteiro bem pode dormir até mais tarde, que ninguém se incomoda a escrever-me. É significativo. Não sei bem de quê, mas é.
Eu, como boa parte da população de Lisboa, nasci em S. Sebastião da Pedreira. Já lá passei duas ou três vezes e confesso que não senti grande coisa. Não me vieram as lágrimas aos olhos. Não me apeteceu escrever poemas. Não me incomoda que o resto do País desconheça onde fica S. Sebastião da Pedreira, quantos habitantes tem a freguesia, ou quais são as tradições locais, se é que há algumas. Trata-se de um sítio, e é tudo. O facto de eu lá ter nascido, como seria de esperar, não transformou a localidade num lugar especial. Assim é que é bonito. O sítio em que nasci é verdadeiramente banal. Não o trocava por nenhum outro.
Por: RIcardo Araújo Pereira
E eu que quando a grande maioria de Lisboetas também em S. Sebatião da Pedreira também concordo na íntegra com o RAP.
Eu própria já passei à porta do sítio onde nasci e de facto não senti nada de especial e concordo que ter nascido num sítio banal faz-me feliz, ah e não o trocava por nenhum outro.
terça-feira, 11 de março de 2008
Eu digo "Piaçaba"




O Piaçabeiro Mor avança mais um passo - É o delírio
É com a voz trémula de emoção, e até algumas palpitações que vos damos a boa nova.
O Piaçabeiro Mor decidiu dar mais um passo para apoiar e incentivar o movimento.
Vejam, autografa um Piaçaba, e dá-o, à pessoa que responder correctamente a uma questão.
Saibam tudo, aqui
Vejam o Piaçabeiro-Mor a autografar o Piaçaba que será entregue a quem tiver essa sorte.
Participem. Dêem o vosso melhor pelo Piaçaba.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
O ambiente faz mau ambiente

Usar material biodegradável, por exemplo, é excelente para os ecologistas mas péssimo para os arqueólogos de 2170, que hão-de andar a escavar buracos enormes, à procura de uma pitoresca pilha alcalina
Poucos temas geram um ambiente mais desagradável do que a questão do ambiente. Há histéricos de um lado a anunciar o fim do mundo e histéricos do outro a assinalar o histerismo dos primeiros, de forma não menos histérica. O que é curioso é que, normalmente, os histéricos agrupam--se segundo critérios ideológicos. Os histéricos de esquerda defendem que isto é tudo da bicharada e as auto-estradas devem ser construídas por cima das casas das pessoas, porque se as construírem numa planície deserta o barulho dos carros torna-se incomodativo e não deixa o escaravelho da batata nidificar. Os histéricos de direita consideram que isto é tudo nosso e recusam-se a parar de tomar 17 banhos de imersão por dia, mesmo quando estiver cientificamente provado que, se eles não fecharem a torneira da água quente neste preciso momento, para a semana deixa de haver elefantes, tigres e vacas no planeta.
O consenso parece difícil e longínquo, até porque há muitos interesses diferentes em jogo. Usar material biodegradável, por exemplo, é excelente para os ecologistas mas péssimo para os arqueólogos de 2170, que hão-de andar a escavar buracos enormes, à procura de uma pitoresca pilha alcalina ou de uma valiosa embalagem de bifes feita daquela espécie esquisita de esferovite, e não encontrarão nada porque os ambientalistas convenceram toda a gente a usar o pilhão e a fazer a fusão a quente da esferovite, ou lá o que é que eles propõem para isso.
Por outro lado, não deixa de ser irónico que várias espécies estejam em vias de extinção sem que nós nunca lhes tenhamos feito mal directamente (eu, por exemplo, nunca matei uma foca à paulada – nem conto vir a matar, por muito que me digam que é giríssimo), e as moscas estejam cheias de vitalidade quando o ser humano anda há séculos a planear e a executar programas de extermínio só para elas. É ridículo que um urso panda seja mais frágil do que uma barata, e a natureza devia repensar isso. Quando temos a sensação de que o planeta anda a fazer pouco de nós, é mais difícil arranjar vontade de o proteger.
O planeta que vá gozar com a mãe dele.
Suponho que os próprios ecologistas tenham muita dificuldade em controlar-se. Tanto empenho a ir colher ensinamentos à natureza e depois a natureza vai e prega-lhes umas partidas inadmissíveis. Por exemplo, a maior parte dos animais usam peles de animal – coisa que os ecologistas abominam. Os animais chamam-lhe apenas pele, mas não enganam ninguém. Aquilo é mesmo pele de animal. Há dias passei por uma raposa que envergava uma bonita pele de raposa e só por estar com pressa é que não voltei atrás para lhe despejar um spray de tinta no lombo.
O próprio número da VISÃO que o leitor segura nas mãos faz pouco sentido. Parece que o objectivo é ajudar as pessoas a compreender que é preciso ter um comportamento mais responsável em relação ao ambiente. E, no entanto, fartaram-se de deitar árvores abaixo para eu escrever estas baboseiras.
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